As motos de quatro cilindros dão cada vez mais lugar a modelos de dois e de três cilindros. As normas de emissão pesam nessa troca, mas não explicam tudo. Segundo um engenheiro de desenvolvimento da Honda, a escolha do motor depende antes de tudo da proposta da moto e do custo do projeto.
Atualmente, a Honda CB750 Hornet, a Suzuki GSX-8S e a Yamaha R7 aparecem entre as bicilíndricas que ocuparam o espaço de antigos quatro cilindros.
Por que as motos de quatro cilindros estão sumindo?
Por um lado, as regras de emissão cada vez mais duras entram na conta. No entanto, quem desenha o motor começa por outra pergunta, que é para que a moto vai servir.
Bismark do Vale, engenheiro da Honda, explica que a diferença de conceito independe da legislação. O motor de quatro cilindros costuma servir ao uso em asfalto, com giros altos e menos torque em baixa. Já o de dois cilindros faz o caminho oposto e combina mais com o off-road.
Ele cita um exemplo direto: um quatro cilindros em linha numa moto de aventura, como a Africa Twin, entregaria força fraca em baixa rotação. Por isso, o piloto teria menos domínio da moto fora do asfalto.

Custo pesa mais nas motos de média cilindrada
Em segundo lugar, entra o dinheiro. Na média cilindrada, o volume de vendas é maior e a margem é menor. Assim, a engenharia pergunta por que usar quatro cilindros num motor de 500 cc, se dois bem projetados entregam o mesmo desempenho.
Na pista, o quatro cilindros rende mais, porém essa regra não vale sempre. Na média motorização, os bicilíndricos se saem bem até na motovelocidade. Portanto, repetir a arquitetura mais cara numa moto que já atinge a meta com dois cilindros seria desperdício.
O que as normas de emissão mudam para as motos de quatro cilindros?
Primeiro, em vigor desde 2024 para novas homologações, o Euro 5+ não baixou os limites de poluentes. Em compensação, apertou o diagnóstico de bordo, a durabilidade dos componentes e o monitoramento do catalisador. Segundo consultores de engenharia, algumas marcas deixaram de homologar certos modelos porque a conta não fechava.
Ainda assim, o quatro cilindros não virou sinônimo de motor reprovado. Por exemplo, a Kawasaki ZX-4R e a QJMotor SRK450RR atendem ao Euro 5+. Quando a marca decide bancar o investimento, o motor passa.
Aqui no Brasil também há exemplo. Além disso, a A Honda CB 1000 Hornet chegou com quatro cilindros e 147 cv. Para cumprir a fase Promot 5, a Honda usou um escapamento de grandes dimensões. A marca poderia tentar uma moto desse porte com menos cilindros, mas dificilmente entregaria o mesmo desempenho.

O preconceito com o dois cilindros é cultural
Por fim, há ainda o lado do consumidor, que associa quatro cilindros a desempenho. Para o engenheiro, quem teve contato com esse tipo de moto sente a troca como um downgrade.
Essa percepção tem base sensorial. Afinal, com menos cilindros, o motor funciona de forma mais descompassada, o que aumenta a vibração e a sensação de potência. Várias fabricantes buscam justamente esse efeito.
Mesmo assim, o público de média cilindrada para baixo não é formado por pilotos de track day. Além disso, boa parte dos bicilíndricos vendidos hoje atende até quem roda em pista.
O que isso muda para quem compra moto?
Na prática, o piloto de média cilindrada encontra mais opções de dois cilindros, com preço menor e boa entrega de torque. Em compensação, quem quer a sensação clássica do quatro cilindros em rotação alta ainda a encontra em motos como a Hornet 1000. Para comparar preços, veja o que o preço da Hornet 1000 mostra frente à CB 650R.








